quarta-feira, 18 de maio de 2016

Deus permite-nos tirar o bem do mal



De Joseph Tissot, A arte de aproveitar as próprias faltas. São Paulo: Quadrante, 2003. p. 49-50.

Não desanimar ou sequer admirar-nos das nossas faltas é uma disposição indispensável e, ao mesmo tempo, eminentemente salutar. Mas não se constitui senão a parte negativa da arte de utilizarmos os nossos defeitos. Abordemos agora a parte positiva e indaguemos como podemos aproveitar os nossos pecados como fonte de progresso espiritual, apesar da sua malícia.

É claro que esse proveito não virá dos pecados em si mesmos, mas da misericórdia divina e da graça de Cristo que, servindo-se das nossas iniquidades, sabe fazer refugir a sua bondade e tirar proveito das nossas fraquezas para a nossa salvação. O esterco é, sem dúvida, uma corrupção, um detrito, e contudo, observa São Bernardo, "o lavrador e o jardineiro aproveitam-no para que a terra produza frutos mais sumarentos e abundantes. Do mesmo modo, Deus serve-se das nossas fraquezas para fazer com que o terreno da nossa alma produza copiosos frutos de virtude, e a sua bondade, que sabe sempre pôr a nossa vontade e as nossas ações desordenadas a serviço da beleza da ordem divina, digna-se também empregá-las em nosso benefício."

Esse proveito será tanto maior quanto mais vivamente detestarmos os nossos defeitos, quanto mais implacavelmente os combatermos, e, por outro lado, quanto mais ativamente nos associarmos os desígnios de Deus, que permitiu esses desacertos para o nosso bem.

Temos de secundar os planos do Redentor que a Igreja nos desvenda, combater o Maligno com as suas próprias armas, voltar contra ele os seus artifícios e achar remédio para as feridas que nos inflige. Deste modo verificaremos por uma feliz experiência quanta verdade há nesta palavra de São João Crisóstomo: "O próprio demônio nos é muitas vezes de grande utilidade; é preciso apenas saber fazê-lo servir para nosso proveito. E assim o lucro que nos proporcionará será inapreciável".

Santo Agostinho resume esse lucro em poucas palavras: “Tudo contribui para o bem dos que amam a Deus”, diz ele, repetindo São Paulo; “tudo, até as quedas, pois delas podemos levantar-nos mais humildes, mais vigilantes e mais fervorosos”. É o pensamento de São Francisco de Sales: “Bem-aventuradas imperfeições!”, exclama; “fazem-nos conhecer a nossa miséria, exercitam-nos na humildade, no desprezo de nós mesmos, na paciência e na diligência”.