sexta-feira, 31 de julho de 2020

Como age satanás


De Pe. Gabriele Amorth, Vade retro satanás! São Paulo: Editora Canção Nova, 2013. p. 19-21.

Não é possível compreender a obra da Redenção (pela qual Jesus Cristo redimiu a humanidade), se não se reconhecer a obra de desagregação realizada por satanás. Não sem motivo, um dos nomes com os quais se identifica é "diabo", que em grego significa "aquele que divide, que arremessa para o outro lado". Tendo satanás se afastado de Deus, tende a afastar Dele também as outras criaturas, arrastando para o inferno quantas almas puder, para que sigam suas pegadas e acabem por sofrer a mesma punição que ele. Conforme já sublinhado, ele rebelou-se por primeiro e, portanto, encontra-se na situação de rebelde em busca de rebeldes que, como ele, assumam uma postura de oposição a Deus. O esforço do demônio está em agir de tal modo que toda a criação se rebele contra seu Criador.
O demônio está sempre ativo e continuará sua obra até a Parusia, isto é, até o retorno de Cristo no final dos tempos. A sua atividade é dupla: uma que definimos como extraordinária e outra que denominamos ordinária. A atividade extraordinária, da qual trataremos mais amplamente a seguir, é certamente mais rara, muito embora sempre possuída e exercida pelo demônio, e é aquela que consiste em buscar males maléficos ou até mesmo a possessão. A atividade ordinária, que ninguém jamais negou, nem colocou em discussão, é a de tentador, segundo a qual, precisamente, tenta o homem ao mal.
É preciso ter em mente que o diabo é tremendamente monótono em suas tentações e, quando o interroguei a este propósito, ele confirmou sua monotonia, mas também acrescentou que, independentemente dela, nós, homens, sempre caímos em suas ciladas.
O esforço maior do demônio consiste, pois, na pura e simples tentação; tentação à qual todos nós estamos sujeitos, a tal ponto que também Jesus Cristo, encarnando-se e tornando-se verdadeiro homem como nós, em tudo semelhante a nós, exceto no pecado, como explica a carta aos Hebreus, aceitou submeter-se às tentações de satanás.

Por isso devia fazer-se em tudo semelhante aos irmãos, para se tornar um sumo sacerdote misericordioso e digno de confiança nas coisas que concernem a Deus, a fim de expiar os pecados do povo. Pois, tendo ele próprio sofrido ao ser tentado, é capaz de socorrer os que agora sofrem tentação (Hb 2, 17-18).

quarta-feira, 29 de julho de 2020

A Bíblia não é um livro, é uma pessoa


De Antonio González Roser, O Evangelho tal qual. Secretaria dos Movimentos Franciscanos: 1991. p. 12.

Assim como o próximo e a Eucaristia, a Bíblia é um lugar privilegiado para encontrar-nos com Deus. Não é um livro de citações, mas um lugar de referência. Por isso, conhecer a Bíblia é como conhecer uma pessoa:
Todos nós temos uma fachada. É como a nossa face externa. Saber o nome, o endereço e o trabalho de alguém, conhecer sua fisionomia, identificar sua voz já é alguma coisa, mas ainda falta muito para dizer que já se conhece a pessoa.
Existe também um conhecimento superficial da Bíblia: identificar seus livros, saber o que se maneja, reconhecer seus autores, identificar as grandes etapas do Antigo e do Novo Testamento. É por aí que se começa, mas não é o bastante.
Uma pessoa nós vamos conhecendo à medida que convivemos com ela e que vamos sabendo, aos poucos, como realmente ela pensa e sente. Com a familiaridade descobrimos o Eu-real que se esconde por detrás da fachada. Quando conhecemos alguém, começamos a aceitá-lo e a estimá-lo.
Também com a Bíblia ocorre uma coisa parecida. Começamos a conhecê-la e entendê-la quando estudamos sua história, quando deciframos o pano de fundo que se esconde por detrás das palavras e das formas literárias, quando descobrimos que o mesmo Deus que atuava na história de Israel e de Jesus está vivo e atuante em nossa história pessoal e social. Quem aprende a descobrir a mensagem escondida atrás da literatura e da história chega ao Eu-real da Bíblia. Descobre o rosto de Deus.
Quando uma relação se aprofunda em forma de espiral sem fim, as pessoas chegam a fundir-se em um só coração e um só projeto de vida, sem que cada uma renuncie à sua personalidade própria. É o caso dos casais que decidem compartilhar juntos a vida, ficando "imbuídos" um do outro. 
Quem lê, estuda, compartilha e reza com a Bíblia, procurando sinceramente colocar a mensagem na vida, pouco a pouco vai mudando o seu coração, sua maneira de pensar e de viver, assemelhando-se cada vez mais a Jesus, o cume e a síntese de toda a Revelação. Isto é a conversão. Esse o caminho que nos leva à Vida. Então a Bíblia, juntamente com o próximo e a Eucaristia, que são uma mesma coisa, chega a ocupar o centro da vida. Paulo o expressou assim: "Tudo tenho por perda e lixo, quando comparado com a grande oportunidade de conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor". (cf. Fl 3, 7-8)  

segunda-feira, 27 de julho de 2020

A linguagem dos sinais


De Scott Hahn, Razões para crer. Lorena: Cléofas, 2016. p. 70-71.

Os milagres narrados nos três primeiros Evangelhos são tratados como "sinais" pelo quarto Evangelho. Para o evangelista São João, um milagre é uma grande prova do poder de Jesus, e possui um propósito ainda maior. Jesus trabalha esses "sinais" visíveis, materiais e históricos, dando-lhes um significado maior, invisível, espiritual e transcendental. A transformação da água em vinho é um milagre que significa a maior maravilha da Sagrada Eucaristia. A água do Batismo é um sinal de um novo nascimento para a vida divina. Mas, aos olhos humanos, estes mistérios divinos estão velados.
Ao falar a Nicodemos, Jesus deixou claro que o Batismo - sinal cuja natureza eu lutava há tantos anos atrás -, é o sinal que nos dá a luz para "vermos o reino dos céus". E ainda mais, nos dá um novo nascimento, uma nova família, uma nova casa. O Batismo nos dá a graça de vermos os mistérios do Cristianismo com os olhos da fé.
A graça da fé desvenda os mistérios para nós. E com a nossa resposta de fé, nós vemos. É essa visão que nos permite compreender, explicar e defender a fé.
Os profetas previram que a graça de Deus deve ir muito além da terra prometida e do povo escolhido, ao mundo, à todas as nações, e a todos os pagãos. Deus, em sua bondade, faz com que sejamos os canais dessa graça. Quando encontramos teístas que não aceitaram Cristo, temos de dar a eles as razões para crerem. Nós devemos ser boas razões para crerem, como os profetas e como Jesus, de cuja vida participamos.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Súplica à Nossa Senhora


De Alfonso Milagro, Os cinco minutos de Maria: reflexões sobre a Virgem para cada dia do ano. São Paulo: Editora Ave-Maria, 2001. p. 123-124.

Mãe, ouve a minha súplica, que é um grito na noite.
Mãe, olha para mim na noite de minha juventude.
Mãe, salva-me; milhares de perigos espreitam minha vida.
Mãe, enche-me de esperança, de amor e de fé.
Mãe, guia-me nas sombras, pois não encontro o caminho.
Mãe, leva-me, pois a teu lado feliz cantarei.
Não te esqueças, Senhora: Tu és minha Mãe.
Faze que eu nunca me esqueça de que sou teu filho.
Virgem fecunda, que também minha vida seja fecunda em boas obras.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Realidade ou utopia?


De Pe. Francisco Faus, Otimismo cristão hoje: diálogo com um pessimista. São Paulo: Quadrante, 2008. p. 35-37.

- Acho que a melhor resposta a essa tentação de ceticismo no-la vai dar o Papa Bento XVI. Na parte final da encíclica Deus é amor (Deus caritas est), fala de que "os cristãos continuam a crer, não obstante todas as incompreensões e confusões do mundo circunstante, <<na bondade de Deus e no seu amor pelos homens>> (Tit 3,4). Apesar de estarem imersos, como os outros seres humanos, na complexidade dramática das vicissitudes da história, permanecem inabaláveis na certeza de que Deus é Pai e nos ama, ainda que o seu silêncio seja incompreensível para nós".
E acrescenta, com palavras que convém meditar:

"A fé mostra-nos o Deus que entregou o seu Filho por nós e, assim, gera em nós a certeza vitoriosa de que isto é mesmo verdade: Deus é Amor! Desse modo, Ele transforma a nossa impaciência e as nossas dúvidas em esperança segura de que Deus tem o mundo nas suas mãos e que, não obstante todas as trevas, Ele vence [...]. A fé que toma consciência do amor de Deus revelado no coração trespassado de Jesus na cruz, suscita, por sua vez, o amor. Aquele amor divino é a luz - fundamentalmente, a única - que ilumina incessantemente um mundo às escuras e nos dá a coragem de viver e agir. O amor é possível, e nós somos capazes de o praticar porque criados à imagem de Deus. Viver o amor e, desse modo, fazer entrar a luz de Deus no mundo: tal é o convite que vos queria deixar com a presente encíclica".

Utopia? As utopias são divagações sonhadoras, ou teimosos apriorismos ideológicos, divorciados da realidade. Cristo é "realista". Nunca prometeu um triunfo geral e avassalador. Ninguém melhor do que Ele conhece o caráter sagrado da liberdade que Ele próprio nos outorgou. Podemos dizer-lhe "sim" e podemos dizer-lhe "não". Ele nada quer impor-nos, apenas propor-nos: Eis que estou à porta do teu coração e bato. Se alguém escutar a minha voz e me abrir a porta, entrarei e cearei com ele... (Apoc 3,20). A liberdade de dizer "não" sempre estará na mão de todos os homens. Mas também estará a liberdade de dizer "sim" e de mudar o mundo, lavando-o num tsunami de Verdade e de Amor.
"A vida - escreve ainda Bento XVI - não é um simples produto das leis e dos acasos da matéria". Não estamos em um mundo cego, à deriva. "Em tudo e, contemporaneamente, acima de tudo - prossegue -, há uma Vontade pessoal, há um Espírito que em Jesus se revelou como Amor". Deus não deixará que o mundo se transforme num pião desvairado, mesmo que às vezes chegue à beira disso. Deus está presente e age: Meu Pai continua agindo até agora - diz Jesus - e eu ajo também (Jo 5,17). E isso não é utopia, é uma verdade prodigiosa. 

terça-feira, 21 de julho de 2020

Indicações de leituras VI

Por Visão Transcendente

6º) Livro – Carta aos amigos da Cruz. Autor – São Luís de Montfort.


“Se alguém quiser vir após mim, renegue- se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me” (Lc 9, 23). Poucos escritores souberam colocar com tanta sabedoria e profundidade o sentido dessas palavras de Jesus.
A Cruz é condição indispensável para quem decide firmemente seguir o Senhor. Todas as testemunhas de Cristo, a começar pelos apóstolos, os mártires, confessores, padres da Igreja, santos e santas, conhecem a perseguição por causa de Cristo e também as tribulações da caminhada: "se a mim perseguiram também vos perseguirão a vós". (Jo 15, 20).
Este pequeno livro de São Luís de Montfort é um programa de vida para o cristão.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

A vida virtuosa



De Thomas E. Woods Jr., Como a Igreja Católica construiu a civilização Ocidental. São Paulo: Quadrante, 2008. p. 201-203.

Um aspecto da antiga filosofia grega que constituiu uma ponte para o pensamento católico foi a afirmação de que existe um gênero de vida que convém ao chimpanzé, e outro que convém ao ser humano. Dotado de razão, o ser humano não está condenado a agir por mero instinto. É capaz de reflexão moral, uma faculdade que nem os mais evoluídos espécimes do reino animal possuem. Se falha no exercício dessa faculdade, jamais poderá viver à altura da sua natureza. Se não dá prioridade às operações da inteligência, se não submete a sua conduta a um juízo moral sério, como se poderá dizer que é um ser humano? Se o princípio que rege a vida de um homem é fazer tudo o que lhe traga um prazer imediato, esse homem, em certo sentido, não difere de um animal.
A Igreja ensina que uma vida verdadeiramente digna do ser humano requer a ajuda da graça divina. Mesmo os pagãos romanos se apercebiam de certo modo da condição degradada do homem: "Que coisa desprezível é o homem, se não consegue elevar-se acima da condição humana!", escreveu Sêneca. A graça de Deus podia ajudá-lo a conseguir essa superação. Essa é a finalidade com que a Igreja nos propõe o exemplo dos santos: demonstram ser possível a um homem alcançar uma vida de virtudes heróicas quando se deixa diminuir para que Cristo possa crescer nele.
A Igreja ensina que uma vida boa não é simplesmente aquela em que as ações externas estão acima de qualquer censura. Cristo insiste em que não basta não matar ou não cometer adultério; não se deve apenas preservar o corpo desses crimes; a própria alma deve proteger-se da inclinação a praticá-los. Não devemos apenas não roubar nada do nosso vizinho, mas também não admitir pensamentos de inveja sobre o que ele possui. E embora nos seja permitido, evidentemente, odiar o que é mau - o pecado ou satanás -, temos de afastar qualquer tipo de ira e ódio, que só corroem a alma. Devemos evitar não apenas cometer adultério, mas também entreter-nos com pensamentos impuros, para assim não transformar um ser humano em mero objeto. Uma pessoa que deseje viver uma vida boa não deve converter os seus semelhantes em uma coisa.
Costuma-se dizer que é difícil fazer bem alguma coisa, que é difícil viver como um ser humano mais do que como um animal. Requer-se seriedade moral e autodisciplina. É célebre a afirmação de Sócrates quando diz que o conhecimento é virtude, que conhecer o bem é fazer o bem. Aristóteles e São Paulo sabiam mais que isso, pois todos nos lembramos de momentos da nossa vida em que, conhecendo perfeitamente o que era bom, não o fizemos e, do mesmo modo, sabendo o que era errado, o fizemos. É por isso que os diretores espirituais recomendam aos seus orientados que comam uma cenoura da próxima vez que desejarem comer um doce; não porque os doces sejam maus, mas porque, se conseguirmos disciplinar a nossa vontade em situações em que não está em jogo nenhum princípio moral, estaremos mais bem preparados no momento da tentação, quando estivermos realmente perante a disjuntiva de escolher entre o bem e o mal. E assim como, quanto mais nos habituarmos ao pecado, mais facilmente pecaremos, também é verdade que - como observou Aristóteles - a vida virtuosa se torna cada vez mais fácil quanto mais a praticamos e mais ela se torna um hábito.
Estas são algumas das idéias distintivas que a Igreja introduziu na civilização ocidental. Hoje em dia, a maioria dos jovens só ouviu falar em termos caricatos dos ensinamentos da Igreja sobre a moral sexual, e, dada a cultura em que vivem, nem podem começar a entender por que a Igreja as propõe. Contudo, fiel à missão que tem cumprido ao longo de dois milênios, a Igreja continua a anunciar uma outra proposta moral a esses jovens imersos em uma cultura que os ensina incansavelmente a buscar o prazer imediato. A Igreja recorda as grandes figuras da Cristandade - como Carlos Magno, São Tomás de Aquino, São Francisco de Assis, para citar uns poucos - e oferece-os como modelo de como devem viver os verdadeiros homens.
A sua mensagem? Essencialmente esta: você pode aspirar a ser um desses homens - um construtor da civilização, um servidor de Deus e dos homens, um missionário heróico -, ou então alguém centrado em si mesmo, obcecado pela ânsia de satisfazer os seus apetites. A nossa sociedade faz tudo o que está ao seu alcance para que você siga o segundo caminho. Seja você mesmo. Erga-se por cima da manada, declare a sua independência em face de uma cultura que pensa que você é tão pouca coisa, e proclame que quer viver não como um animal, mas como um homem. 

terça-feira, 7 de julho de 2020

A conversão começa pelo coração



Por Visão Transcendente

A conversão não é uma realidade simplesmente exterior, de aparências, mas nasce do interior da pessoa e transborda para fora. A mudança tem que acontecer primeiro dentro do ser, na maneira de compreender e julgar, nos desejos, na vontade, na imaginação, nos sentimentos, e só depois naturalmente ela vem à tona através do comportamento.
Se a mudança de vida de alguém começa com exterioridades, sem raízes no coração, certamente ela durará pouco tempo e logo logo a pessoa voltará à mesma vida velha, e talvez até piorada (como acontece muito).  
No Evangelho encontramos Nosso Senhor condenando os fariseus e os escribas por causa das suas vidas de exterioridades e extravagâncias, os fariseus e escribas eram convertidos só aparentemente, mas os seus corações não estavam ligados a Deus:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de intemperança. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundície. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.” (Mateus 23, 25-28)

Esse trecho do Evangelho é muito claro, Jesus pede para que se lave primeiro o interior do copo, ou seja, o interior do nosso ser, e só depois como consequência o exterior ficará limpo. Muitos escribas e fariseus faziam o contrário, por fora, nas práticas exteriores, pareciam justos e santos, com o objetivo de serem admirados pelas outras pessoas, mas o interior deles, como disse Jesus, era cheio de imundície, de sujeira. Por isso mais na frente, nesse mesmo discurso, o Senhor diz que eles não escaparão ao juízo de Deus, mas serão condenados pela hipocrisia.
Que a palavra hipócrita significa fingido ou falso, todo mundo sabe. Mas o que pouca gente conhece é a origem dessa palavra. Ela vem do grego hypocrites, que designava, na antiga Grécia, os atores de teatro, pois durante as apresentações eles fingiam ser outras pessoas. E o que eles faziam no palco era uma "hipocrisia", que significava fingimento. Essa palavra também é de origem grega e era aplicada à ação de interpretar uma peça teatral. Com o tempo, hipócrita passou a indicar qualquer pessoa falsa ou fingida, e foi com esse sentido que entrou em nossa língua. Ou seja, hipócrita é aquele que interpreta na sua vida um papel, uma personagem, para ser visto pelas pessoas. Essa falsidade não é tolerada por Deus. Quando entramos no caminho de Deus devemos abandonar as máscaras que trazíamos e caminhar junto d’Ele com sinceridade.
Santo Agostinho dizia que nós devemos tomar cuidado para que nossas palavras correspondam às nossas ações, para não cairmos na hipocrisia, e São Francisco de Assis vai ainda mais profundo:

“Ai do religioso que não retém no seu coração os bens que o Senhor lhe revela, e não os manifesta aos outros pelas obras, mas, quer mostrá-los aos homens mais por palavras e em vista de recompensa. Ele mesmo se recompensa e os ouvintes pouco fruto recolhem.” (São Francisco de Assis, Admoestações XXI)

A única coisa que Deus nos pede integralmente é o nosso coração. O profeta Joel nos fala desse desejo de Deus:

“Oráculo do Senhor: convertei-vos a mim de todo o vosso coração.” (Joel 2, 12)

Deus não pede todo o nosso patrimônio, Deus não pede que a gente esteja o tempo inteiro na Missa, Deus não pede nem que a gente esteja o tempo inteiro rezando formalmente, mas ele pede o nosso coração todo, sem reservas. Como é que então nós podemos entregar o nosso coração completamente para Deus. Tem uma figura muito bonita na Bíblia, nas Lamentações de Jeremias, que expressa como nós devemos entregar o nosso coração a Deus:

“Derrama o teu coração como águas diante da face do Senhor.” (Lamentações 2, 19)

Ou seja, nós devemos esvaziar nosso coração do apego às coisas terrenas, aos nossos “amores” terrenos, para que tendo o coração vazio, ele possa ser completamente preenchido pelo amor a Deus. Então o profeta Jeremias usa essa figura do derramamento da água de um vaso para significar isso. Porque que ele não usa alguma outra figura, como por exemplo, o óleo? Porque o óleo tem certa viscosidade, é mais difícil sair, sempre termina ficando algum resto no vaso, e nós temos que abandonar integralmente os nossos pecados para amar a Deus, não pode restar nenhum pecado em nós. Porque ele não usa a figura do vinho? Porque o vinho sempre deixa o cheiro, pelo menos durante certo tempo, e a gente não deve ter nem o cheiro do pecado. Ele não usa a figura da tinta, ou seja, nós não devemos deixar nenhuma cor, nenhum resquício do pecado em nós. Ele não usa como figura um objeto sólido que a gente deixa cair no chão, porque o objeto sólido nós recolhemos e pomos no lugar de onde tinha caído, mas a água quando cai no chão não pode ser recolhida, assim também os nossos pecados devem ser abandonados e nunca mais devem fazer parte da nossa vida, só assim entregaremos o nosso coração integralmente para Deus.
Se a conversão começa pelo coração, então é necessário purificá-lo. Purificar nosso coração de quê? De todas as ideias, preconceitos, desejos, sonhos e pensamentos mundanos que nos desviaram tanto tempo do caminho de Deus. Essas coisas nós fomos ajuntando dentro do coração no dia-a-dia distante do Senhor: nos pecados que cometemos, nas omissões da bondade que deveríamos ter praticado, nos livros que lemos, nos filmes e na programação de TV que assistimos, nas músicas que ouvimos, nos maus exemplos das outras pessoas, nos conselhos errados que nos foram dados. Pouco a pouco, passo a passo, fomos deixando de ouvir a voz da nossa própria consciência que nos levaria para Deus, e fomos dando ouvido ao mundo, deixamos de lado o bem que parecia evidente que deveríamos praticar, e passamos a aderir ao mal. Escolhemos o caminho fácil, porém desonesto, ao invés do caminho difícil, mas em contrapartida santo. Dia após dia, pecado após pecado, omissão após omissão, nos fomos tornando cegos para a verdade divina e astutos para o mundo. O remédio agora é trilhar o caminho contrário, é dar meia volta na nossa vida e tornar para o bem. É nesse sentido que a conversão pode também ser chamada de restauração ou redenção, porque representa um retorno ao início de tudo, ao bom projeto que Deus tinha para nós.
A Igreja identifica três “vias” paralelas que conduzem o nosso coração de volta para Deus, e são essas as vias que devem ser restauradas ou redimidas: a fé, a esperança e a caridade.

sábado, 4 de julho de 2020

Ajudar a querer bem


De Dom Lourenço de Almeida Prado, OSB, Educação para a democracia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p. 161.

O vício que estamos tentando caracterizar consiste basicamente na perda do sentido de comunicação ou talvez na fuga, consciente ou inconsciente, a essa tarefa. Caso típico dessa fuga é a afirmação, hoje frequente, de que se deve ensinar aquilo que a criança quer.
O professor se orienta pela iniciativa e pelo desejo da criança. "Ensina-lhe a matéria que ela quer, da forma que ela quer e na medida que ela quer". A missão do professor começa um pouco antes: cabe-lhe ajudar a criança a saber desejar. Sua função não consiste em seguir simplesmente os desejos infantis, mas em despertar nas crianças os desejos das coisas que lhes convêm.
Há um princípio filosófico, radicado na mais verdadeira estrutura da racionalidade humana, que nos previne de que nada pode ser desejado sem que seja antes conhecido. Há também uma conclusão da experiência humana que nos adverte de que o homem preocupado com objetivos que parecem urgentes corre o risco de sacrificar no altar do imediatismo as grandes promessas, as possibilidades decisivas que estão, no momento, mais distantes do olhar. Tudo isso é um desafio para o professor.