terça-feira, 7 de julho de 2020

A conversão começa pelo coração



Por Visão Transcendente

A conversão não é uma realidade simplesmente exterior, de aparências, mas nasce do interior da pessoa e transborda para fora. A mudança tem que acontecer primeiro dentro do ser, na maneira de compreender e julgar, nos desejos, na vontade, na imaginação, nos sentimentos, e só depois naturalmente ela vem à tona através do comportamento.
Se a mudança de vida de alguém começa com exterioridades, sem raízes no coração, certamente ela durará pouco tempo e logo logo a pessoa voltará à mesma vida velha, e talvez até piorada (como acontece muito).  
No Evangelho encontramos Nosso Senhor condenando os fariseus e os escribas por causa das suas vidas de exterioridades e extravagâncias, os fariseus e escribas eram convertidos só aparentemente, mas os seus corações não estavam ligados a Deus:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de intemperança. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundície. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.” (Mateus 23, 25-28)

Esse trecho do Evangelho é muito claro, Jesus pede para que se lave primeiro o interior do copo, ou seja, o interior do nosso ser, e só depois como consequência o exterior ficará limpo. Muitos escribas e fariseus faziam o contrário, por fora, nas práticas exteriores, pareciam justos e santos, com o objetivo de serem admirados pelas outras pessoas, mas o interior deles, como disse Jesus, era cheio de imundície, de sujeira. Por isso mais na frente, nesse mesmo discurso, o Senhor diz que eles não escaparão ao juízo de Deus, mas serão condenados pela hipocrisia.
Que a palavra hipócrita significa fingido ou falso, todo mundo sabe. Mas o que pouca gente conhece é a origem dessa palavra. Ela vem do grego hypocrites, que designava, na antiga Grécia, os atores de teatro, pois durante as apresentações eles fingiam ser outras pessoas. E o que eles faziam no palco era uma "hipocrisia", que significava fingimento. Essa palavra também é de origem grega e era aplicada à ação de interpretar uma peça teatral. Com o tempo, hipócrita passou a indicar qualquer pessoa falsa ou fingida, e foi com esse sentido que entrou em nossa língua. Ou seja, hipócrita é aquele que interpreta na sua vida um papel, uma personagem, para ser visto pelas pessoas. Essa falsidade não é tolerada por Deus. Quando entramos no caminho de Deus devemos abandonar as máscaras que trazíamos e caminhar junto d’Ele com sinceridade.
Santo Agostinho dizia que nós devemos tomar cuidado para que nossas palavras correspondam às nossas ações, para não cairmos na hipocrisia, e São Francisco de Assis vai ainda mais profundo:

“Ai do religioso que não retém no seu coração os bens que o Senhor lhe revela, e não os manifesta aos outros pelas obras, mas, quer mostrá-los aos homens mais por palavras e em vista de recompensa. Ele mesmo se recompensa e os ouvintes pouco fruto recolhem.” (São Francisco de Assis, Admoestações XXI)

A única coisa que Deus nos pede integralmente é o nosso coração. O profeta Joel nos fala desse desejo de Deus:

“Oráculo do Senhor: convertei-vos a mim de todo o vosso coração.” (Joel 2, 12)

Deus não pede todo o nosso patrimônio, Deus não pede que a gente esteja o tempo inteiro na Missa, Deus não pede nem que a gente esteja o tempo inteiro rezando formalmente, mas ele pede o nosso coração todo, sem reservas. Como é que então nós podemos entregar o nosso coração completamente para Deus. Tem uma figura muito bonita na Bíblia, nas Lamentações de Jeremias, que expressa como nós devemos entregar o nosso coração a Deus:

“Derrama o teu coração como águas diante da face do Senhor.” (Lamentações 2, 19)

Ou seja, nós devemos esvaziar nosso coração do apego às coisas terrenas, aos nossos “amores” terrenos, para que tendo o coração vazio, ele possa ser completamente preenchido pelo amor a Deus. Então o profeta Jeremias usa essa figura do derramamento da água de um vaso para significar isso. Porque que ele não usa alguma outra figura, como por exemplo, o óleo? Porque o óleo tem certa viscosidade, é mais difícil sair, sempre termina ficando algum resto no vaso, e nós temos que abandonar integralmente os nossos pecados para amar a Deus, não pode restar nenhum pecado em nós. Porque ele não usa a figura do vinho? Porque o vinho sempre deixa o cheiro, pelo menos durante certo tempo, e a gente não deve ter nem o cheiro do pecado. Ele não usa a figura da tinta, ou seja, nós não devemos deixar nenhuma cor, nenhum resquício do pecado em nós. Ele não usa como figura um objeto sólido que a gente deixa cair no chão, porque o objeto sólido nós recolhemos e pomos no lugar de onde tinha caído, mas a água quando cai no chão não pode ser recolhida, assim também os nossos pecados devem ser abandonados e nunca mais devem fazer parte da nossa vida, só assim entregaremos o nosso coração integralmente para Deus.
Se a conversão começa pelo coração, então é necessário purificá-lo. Purificar nosso coração de quê? De todas as ideias, preconceitos, desejos, sonhos e pensamentos mundanos que nos desviaram tanto tempo do caminho de Deus. Essas coisas nós fomos ajuntando dentro do coração no dia-a-dia distante do Senhor: nos pecados que cometemos, nas omissões da bondade que deveríamos ter praticado, nos livros que lemos, nos filmes e na programação de TV que assistimos, nas músicas que ouvimos, nos maus exemplos das outras pessoas, nos conselhos errados que nos foram dados. Pouco a pouco, passo a passo, fomos deixando de ouvir a voz da nossa própria consciência que nos levaria para Deus, e fomos dando ouvido ao mundo, deixamos de lado o bem que parecia evidente que deveríamos praticar, e passamos a aderir ao mal. Escolhemos o caminho fácil, porém desonesto, ao invés do caminho difícil, mas em contrapartida santo. Dia após dia, pecado após pecado, omissão após omissão, nos fomos tornando cegos para a verdade divina e astutos para o mundo. O remédio agora é trilhar o caminho contrário, é dar meia volta na nossa vida e tornar para o bem. É nesse sentido que a conversão pode também ser chamada de restauração ou redenção, porque representa um retorno ao início de tudo, ao bom projeto que Deus tinha para nós.
A Igreja identifica três “vias” paralelas que conduzem o nosso coração de volta para Deus, e são essas as vias que devem ser restauradas ou redimidas: a fé, a esperança e a caridade.

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