Por Visão Transcendente
A conversão não é uma realidade
simplesmente exterior, de aparências, mas nasce do interior da pessoa e
transborda para fora. A mudança tem que acontecer primeiro dentro do ser, na
maneira de compreender e julgar, nos desejos, na vontade, na imaginação, nos
sentimentos, e só depois naturalmente ela vem à tona através do comportamento.
Se a mudança de vida de alguém começa
com exterioridades, sem raízes no coração, certamente ela durará pouco tempo e
logo logo a pessoa voltará à mesma vida velha, e talvez até piorada (como
acontece muito).
No Evangelho encontramos Nosso Senhor
condenando os fariseus e os escribas por causa das suas vidas de exterioridades
e extravagâncias, os fariseus e escribas eram convertidos só aparentemente, mas
os seus corações não estavam ligados a Deus:
“Ai
de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que limpais o exterior do copo e
do prato, mas o interior está cheio de rapina e de intemperança. Fariseu cego! Limpa
primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo.
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que sois semelhantes aos
sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente
estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundície. Assim também vós
exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de
hipocrisia e de iniquidade.” (Mateus 23, 25-28)
Esse trecho do Evangelho é muito claro,
Jesus pede para que se lave primeiro o interior do copo, ou seja, o interior do
nosso ser, e só depois como consequência o exterior ficará limpo. Muitos
escribas e fariseus faziam o contrário, por fora, nas práticas exteriores,
pareciam justos e santos, com o objetivo de serem admirados pelas outras
pessoas, mas o interior deles, como disse Jesus, era cheio de imundície, de
sujeira. Por isso mais na frente, nesse mesmo discurso, o Senhor diz que eles
não escaparão ao juízo de Deus, mas serão condenados pela hipocrisia.
Que a palavra hipócrita significa
fingido ou falso, todo mundo sabe. Mas o que pouca gente conhece é a origem dessa
palavra. Ela vem do grego hypocrites,
que designava, na antiga Grécia, os atores de teatro, pois durante as
apresentações eles fingiam ser outras pessoas. E o que eles faziam no palco era
uma "hipocrisia", que significava fingimento. Essa palavra também é
de origem grega e era aplicada à ação de interpretar uma peça teatral. Com o
tempo, hipócrita passou a indicar qualquer pessoa falsa ou fingida, e foi com
esse sentido que entrou em nossa língua. Ou seja, hipócrita é aquele que
interpreta na sua vida um papel, uma personagem, para ser visto pelas pessoas.
Essa falsidade não é tolerada por Deus. Quando entramos no caminho de Deus
devemos abandonar as máscaras que trazíamos e caminhar junto d’Ele com
sinceridade.
Santo Agostinho dizia que nós devemos
tomar cuidado para que nossas palavras correspondam às nossas ações, para não
cairmos na hipocrisia, e São Francisco de Assis vai ainda mais profundo:
“Ai
do religioso que não retém no seu coração os bens que o Senhor lhe revela, e
não os manifesta aos outros pelas obras, mas, quer mostrá-los aos homens mais
por palavras e em vista de recompensa. Ele mesmo se recompensa e os ouvintes
pouco fruto recolhem.” (São Francisco de Assis,
Admoestações XXI)
A única coisa que Deus nos pede
integralmente é o nosso coração. O profeta Joel nos fala desse desejo de Deus:
“Oráculo
do Senhor: convertei-vos a mim de todo o vosso coração.”
(Joel 2, 12)
Deus não pede todo o nosso patrimônio,
Deus não pede que a gente esteja o tempo inteiro na Missa, Deus não pede nem
que a gente esteja o tempo inteiro rezando formalmente, mas ele pede o nosso
coração todo, sem reservas. Como é que então nós podemos entregar o nosso
coração completamente para Deus. Tem uma figura muito bonita na Bíblia, nas
Lamentações de Jeremias, que expressa como nós devemos entregar o nosso coração
a Deus:
“Derrama
o teu coração como águas diante da face do Senhor.” (Lamentações
2, 19)
Ou seja, nós devemos esvaziar nosso
coração do apego às coisas terrenas, aos nossos “amores” terrenos, para que
tendo o coração vazio, ele possa ser completamente preenchido pelo amor a Deus.
Então o profeta Jeremias usa essa figura do derramamento da água de um vaso
para significar isso. Porque que ele não usa alguma outra figura, como por
exemplo, o óleo? Porque o óleo tem certa viscosidade, é mais difícil sair,
sempre termina ficando algum resto no vaso, e nós temos que abandonar
integralmente os nossos pecados para amar a Deus, não pode restar nenhum pecado
em nós. Porque ele não usa a figura do vinho? Porque o vinho sempre deixa o
cheiro, pelo menos durante certo tempo, e a gente não deve ter nem o cheiro do
pecado. Ele não usa a figura da tinta, ou seja, nós não devemos deixar nenhuma
cor, nenhum resquício do pecado em nós. Ele não usa como figura um objeto
sólido que a gente deixa cair no chão, porque o objeto sólido nós recolhemos e
pomos no lugar de onde tinha caído, mas a água quando cai no chão não pode ser
recolhida, assim também os nossos pecados devem ser abandonados e nunca mais
devem fazer parte da nossa vida, só assim entregaremos o nosso coração
integralmente para Deus.
Se a conversão começa pelo coração,
então é necessário purificá-lo. Purificar nosso coração de quê? De todas as
ideias, preconceitos, desejos, sonhos e pensamentos mundanos que nos desviaram
tanto tempo do caminho de Deus. Essas coisas nós fomos ajuntando dentro do
coração no dia-a-dia distante do Senhor: nos pecados que cometemos, nas
omissões da bondade que deveríamos ter praticado, nos livros que lemos, nos
filmes e na programação de TV que assistimos, nas músicas que ouvimos, nos maus
exemplos das outras pessoas, nos conselhos errados que nos foram dados. Pouco a
pouco, passo a passo, fomos deixando de ouvir a voz da nossa própria
consciência que nos levaria para Deus, e fomos dando ouvido ao mundo, deixamos
de lado o bem que parecia evidente que deveríamos praticar, e passamos a aderir
ao mal. Escolhemos o caminho fácil, porém desonesto, ao invés do caminho
difícil, mas em contrapartida santo. Dia após dia, pecado após pecado, omissão
após omissão, nos fomos tornando cegos para a verdade divina e astutos para o
mundo. O remédio agora é trilhar o caminho contrário, é dar meia volta na nossa
vida e tornar para o bem. É nesse sentido que a conversão pode também ser
chamada de restauração ou redenção, porque representa um retorno ao início de
tudo, ao bom projeto que Deus tinha para nós.
A Igreja identifica três “vias”
paralelas que conduzem o nosso coração de volta para Deus, e são essas as vias
que devem ser restauradas ou redimidas: a fé, a
esperança e a caridade.

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