terça-feira, 19 de julho de 2016

Que só em Deus se há de buscar a verdadeira consolação


Da Imitação de Cristo, livro III, capítulo XVI.

Tudo que posso desejar ou procurar para meu consolo não o espero nesta vida, mas na futura, porque ainda que eu tivesse todas as consolações do mundo e pudesse fruir todas as suas delícias, certo é que não poderiam durar muito tempo. Portanto, considera, ó minha alma, que não poderás achar consolo pleno e alegria perfeita senão em Deus, que consola os pobres e agasalha os humildes. Espera um pouco, ó minha alma, espera a divina promessa, e no céu terás todos os bens em abundância. Se desordenadamente desejares os bens presentes, perderás os eternos e celestes. Usa das coisas temporais, mas deseja as eternas. Não te podes satisfazer bem algum temporal, porque não foste criada para gozá-los.

Ainda que possuísses todos os bens criados, não poderias ser feliz e estar contente, porque só em Deus, criador de tudo, consiste tua bem-aventurança e felicidade; não qual a entendem e louvam os amadores do mundo, mas como a esperam os bons servos de Cristo, e às vezes antegozam as pessoas espirituais e limpas de coração, cuja cidadania está nos céus (Fl 3,20). Curto e vão é todo consolo humano; bendita e verdadeira a consolação que a verdade nos comunica interiormente. O homem devoto em toda parte traz consigo seu consolador, Jesus, e lhe diz: Assisti-me, Senhor Jesus, em todo lugar e tempo. Seja, pois, esta a minha consolação: o carecer voluntariamente de toda consolação humana. E se me faltar também vosso consolo, seja para mim vossa vontade, que justamente me experimenta, a suprema consolação. Porque não dura sempre a vossa ira, nem nos ameaçareis eternamente (Sl 102,9).

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Tu és a voz


De Padre João Mohana, Como ser um bom pregador. São Paulo: Edições Loyola, 2005. p. 77-78.

Num sermão de advento sobre João Batista, Santo Agostinho recomendou aos fiéis de Hipona que distinguissem voz e palavra.

João Batista foi a voz. Jesus é a Palavra. A Palavra de Deus.

Acontece que a Palavra de Deus não cessa, não passa, não se extingue. Pelo contrário, tem de estar sempre presente entre os homens, entre os cristãos. Mas, como a voz de João Batista passou, a voz de todo pregador também passa. Por isso, em cada geração, Jesus conta com tua voz, com minha voz, com nossa voz.

Lembro-me, neste momento, do brilhante ator Lawrence Olivier, um dos maiores do século XX, desvendando para os jovens atores os segredos da arte de interpretar. E a condição primeira, apontada por Lawrence Olivier, é esta: o ator deve, antes de tudo, amar o personagem a interpretar. Seja o personagem cativante, seja asqueroso, limpo ou crápula.

Se não amar o personagem, jamais um ator poderá assumir a tarefa de torná-lo convincente. Ora, se isto é válido - e como é - para uma simples interpretação, tanto mais válido será para um pregador, cuja função é mais que interpretar - é testemunhar. E, se é válido para personagens fictícios, tanto mais válido é para Aquele que não é apenas a Palavra de vida, mas o Sentido pleno da vida. Como não amar essa Palavra e esse Sentido? É nossa razão de viver e nossa razão de pregar.

Acontece que depois de passarmos, como João Batista, outras vozes precisam colocar-se à disposição da Palavra de Deus, que quer ecoar entre os homens e entre as mulheres de todas as latitudes.

Hoje o Cristo que nos convocou para essa tarefa conta com nosso amor e com nossa responsabilidade. Não apenas com nossos dons.

Voz da Palavra de Deus, cada pregador não deve sucumbir à tentação de auto-suficiência. E resistimos a essa tentação não nos julgando a Palavra, mas simplesmente a voz. Voz que sonha com este privilégio: emprestar-se à Palavra, para que Deus seja ouvido no mundo.

Não é apenas voz dos que não têm voz. É voz dos sem-voz, porque é voz da Palavra de Deus, cuja misericórdia não esquece ninguém.

Consciente de que empresta a voz à Palavra de Deus, todo pregador não deve jamais ceder à tentação de subir ao altar, de ocupar o púlpito sem primeiro encontrar-se com essa Palavra feita carne no meio de nós. E antes de começar a falar, toda vez que pregar - toda vez - o pregador competente e responsável deve dirigir a Jesus Cristo uma prece com o espírito desta:

"Senhor Jesus, eu te entrego agora minha voz. Comunica tua Palavra por meio dela. Fala por mim, Senhor". Apenas esta sinceridade, esta abertura, este sentimento, esta fé.

Para possibilitar tranquilidade nessa oração e alegria nos sermões que ela prepara, foi que escrevi este livro.

E louvado seja Aquele que nos mandou pregar o Evangelho a todos os povos. Amém.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Por que esperar, se pode ser agora?...


De Padre Zezinho, O sexo que Deus lhe deu. São Paulo: Paulinas, 1983. p. 61-62.

Alguns adolescentes e jovens, julgando-se modernos, acham uma tolice uma pessoa ter que esperar a idade para praticar o sexo. Conhecem tantas coleguinhas e tantos rapazes que já o fazem! Nem por isso estão fazendo alguma coisa errada! É o que pensam.

Estes jovens parecem não entender o caminhar da natureza. Não há muita diferença entre um corpo em amadurecimento e uma fruta em amadurecimento.

Tome, por exemplo, uma laranja. Você diria que ela já pode ser colhida e saboreada só porque tem tamanho de laranja? É claro que não! Ela pode ter corpo de laranja grande, formato de laranja grande, e até aparência de laranja grande, mas se não tiver madura, doce, não é laranja adulta. E, não o sendo, não está pronta para ser colhida e saboreada.

Rapazes e meninas que apenas possuem um corpo capaz de agradar, uma aparência capaz de agradar e formas de gente bonita, nem por isso podem se considerar maduros para ser colhidos e saboreados num gesto de amor. Ainda estão verdes para pensar em sexo. Por fora parecem prontos, mas não o estão por dentro. E é por isso que se machucam, ficando elas grávidas ou não. Na verdade, sexo tem tempo e tem hora. E a adolescência certamente não é este tempo.

Lembre-se da laranja. Não colha antes do tempo. Não se deixe colher antes do tempo. Tenha a humildade de se reconhecer verde para certas coisas. E o sexo é uma dessas coisas para as quais a maioria dos jovens ainda não está preparada. Você concorda?

sábado, 9 de julho de 2016

Exílio do coração


De Monsenhor Ascânio Brandão, O Breviário da Confiança. Lorena: Cléofas, 2014. p. 187-188.

O mais triste dos exílios é o do coração. Faz sofrer mesmo dentro da família e da pátria. Sofrimento do amor, é inevitável, pois, no dizer do fino psicólogo da Imitação, "não se vive sem amar e não se ama sem sofrer". As almas nobres sentem no coração um abismo, que nada pode preencher. Nem o prazer dos sentidos, nem as honras, nem as glórias, nem o amor da terra. Daí a melancolia dos grandes corações, prova evidente de que esta vida é um exílio, no qual quem mais sofre é o coração. Bendita seja a misericórdia divina por nos trazer o coração sempre inquieto e insatisfeito até que repouse plenamente em Deus. Esse exílio do coração foi o tormento de Santo Agostinho: "Nosso coração está inquieto, Senhor, enquanto não descansa em Vós". Jesus é a pátria do nosso coração. Só Nele se encontram repouso, alegria e paz. E fora de Jesus, fora do seu amor, não há sossego, viveremos inquietos, agitados e tristes como o peregrino cansado, saudoso e faminto, em viagem penosa, à procura da pátria. Quando o coração experimenta as tristezas do exílio, do abandono das criaturas, da incompreensão dos amigos, da ingratidão do amor, volte-se depressa para Jesus, verdadeira pátria dos corações.

Para o exílio do meu coração, ó Jesus, só a pátria de Vosso coração!

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Te necessito Deus

Preciso de você

É que não há ninguém que possa secar minhas lágrimas

Na tempestade, ó Senhor, tu és a minha calma

E quando todos se vão, nunca me faltas

Preciso de você, porque minha alma hoje, Senhor, está sedenta

E tú és este manancial de água fresca

E Jesus é o pão da vida que me sustenta

Preciso de Deus, preciso de Deus, preciso de Deus, preciso de você

Eu preciso de você…

É que não há ninguém que possa secar minhas lágrimas

Na tempestade, ó Senhor, tu és a minha calma

E quando todos se vão, nunca me faltas

És o que eu preciso

Preciso de você, porque minha alma hoje, Senhor, está sedenta

E tú és este manancial de água fresca

E Jesus é o pão da vida que me sustenta

Preciso de Deus, preciso de Deus, agora mesmo (4X)

Como eu levanto minhas mãos e meus joelhos inclino

Eu grito para o céu: Eu preciso de você Deus!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Leia a Bíblia todos os dias



De Monsenhor Jonas Abib, A Bíblia no meu dia-a-dia. São Paulo: Canção Nova, 2009. p. 23-24.

É a regra de ouro por excelência: ler a Bíblia todos os dias. E todos os dias significa todos os dias. Não abra exceções. Leia quando tiver vontade e quando não tiver também. É como remédio: com vontade ou sem vontade a gente toma porque é necessário. Com a Bíblia é a mesma coisa. E nos tempos em que estamos vivendo, isso é uma urgência.

Você não come todos os dias? Da mesma forma, alimente-se diariamente com a Palavra de Deus!

Assim como a gente toma banho todos os dias e, quando não podemos fazê-lo pela manhã, o corpo fica pedindo por um banho, da mesma forma acontece com a Bíblia. Se você não consegue ler durante o dia, mesmo que você não se aperceba, o seu espírito está pedindo um banho da Palavra de Deus. Não deixe de dar ao seu espírito o que você dá ao seu corpo!

Tem gente que não consegue dormir sem ter tomado um bom banho: vira e revira na cama e não consegue dormir. Que eu e você sejamos um daqueles que não conseguem dormir sem ter lido a Palavra de Deus.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Vou pecar, depois eu me confesso


Por Visão Transcendente

Na tentação, às vezes, nos saímos com esse pensamento: "Vou pecar, depois procurarei o sacerdote e me confessarei". Pensamento perigoso, que certamente não vem de Deus. Aparentemente trata-se de fé na misericórdia divina e confiança no Sacramento da Reconciliação e na Igreja, mas na verdade esse tipo de pensamento revela o oposto disso.

Na verdade, quem pensa assim, provavelmente já está tão imerso no pecado que o seu temor à Deus está por um fio. Na realidade, o pecado já se transformou na sua primeira opção, e ele se agarra nesse pensamento enganando-se a si mesmo, tentando disfarçar a verdade, de que ele "adotou" o seu pecado, agora ele possui o seu "pecado de estimação", que se tornou o seu deus.

Essa pessoa, provavelmente está a tempos abusando da misericórdia divina e já encontra-se "vacinada" com relação à ela. A misericórdia de Deus não é mais a verdade que a leva a arrepender-se de seus erros e a força propulsora que a faz retomar o caminho correto depois das quedas, mas converteu-se numa justificativa para os seus pecados. Mais ou menos assim: "Deus ama-me para sempre, independentemente de meus pecados, e sua misericórdia é infinita, se eu pecar ele sempre me perdoa". Esse conceito é corretíssimo para os que temem à Deus, odiando os próprios pecados e emendando a vida depois da Confissão, mas para quem está imerso no pecado pode se transformar numa justificativa para continuar no erro. Satanás consegue inverter na cabeça das pessoas essa bela realidade da paciência e da misericórdia de Deus, fazendo-nos crer que Ele é permissivo e não exige de nós a mudança de vida, a conversão.

Uma vez, numa homilia, ouvi um padre dizer que o demônio nos confunde da seguinte forma nesse tocante: antes de pecarmos, na tentação, ele nos apresenta a imagem de um Deus infinitamente misericordioso, que sempre nos perdoará, que não nos julga nunca e sempre nos compreende, não importando se pecamos e como pecamos; e depois do pecado, quando estamos desgraçados, justamente no momento em que precisamos crer na misericórdia divina, ele nos incute a imagem de um Deus severo que nos repele porque somos pecadores e que não nos ama porque não seguimos seus ditames, que não nos perdoará porque não compreende nossa fraqueza.

É necessário que façamos esse exame de consciência: será que não estou abusando da misericórdia divina, ou sequer estou compreendendo o que é essa misericórdia.

Outra questão a ser destaca nesse ponto é a falta de sentido do pensamento que dá título a este texto. São dois motivos que nos permitem perceber que esse pensar não tem razão. Primeiro, nós sabemos que o fruto do Sacramento da Reconciliação, que é o perdão dos pecados, pressupõe um arrependimento sincero e a reta intenção de não pecar mais. Não adianta confessar-se sem ter se arrependido e sem ter tomado a firme resolução de voltar a trilhar o caminho de Deus. A confissão não traz o perdão automaticamente se não possuímos esses pressupostos. E quem pensa "vou pecar, depois eu me confesso" não está verdadeiramente arrependido do seu pecado, porque quem pensa assim certamente já esteve muitas vezes diante do sacerdote confessando-se desse mesmo pecado, o arrependimento está adormecido e a confissão pode ter se transformado numa coisa automática, numa obrigação, e não é mais vista como uma graça para a salvação, mas sim como um peso. Segundo, o "depois" pode não existir. Você já pensou nisso? Talvez não haja mais tempo para o arrependimento, a confissão e a emenda da vida. A Bíblia nos conta uma história que ilustra bem isso. Lembra-se da história de Ananias e Safira? Em Atos dos Apóstolos, capítulo 5, nos é dito que eles venderam um pedaço de propriedade e deram uma parte do preço da venda aos apóstolos. O problema foi que eles mentiram na tentativa de se mostrarem mais espirituais do que realmente eram, dizendo aos apóstolos que estavam dando todo o valor da venda. A mentira foi descoberta e a Ananias não foi dada a oportunidade de acertar as coisas. O apóstolo Pedro o repreendeu severamente e, em seguida, a Bíblia diz: "Ouvindo isso, Ananias caiu morto" (Atos dos Apóstolos 5, 5). Quem disse que sempre haverá oportunidade de acertar as coisas? Somente um tolo diria: "Eu sempre posso acertar as coisas depois". Salomão estava certo quando disse: "Não se gabe do dia de amanhã, pois você não sabe o que este ou aquele dia poderá trazer" (Provérbios 27, 1).

Assim sendo, peçamos ao Senhor novamente o seu santo temor e retornemos ao caminho da vida e da felicidade.

sábado, 2 de julho de 2016

Nós viveremos


Do Eu Creio: pequeno catecismo católico. São Paulo: Ajuda à Igreja que sofre: 2005. p. 59-60.

A ressurreição de Jesus Cristo é o núcleo e o coração da nossa fé. A celebração da Vigília Pascal é a solenidade mais sagrada do ano litúrgico. E cada domingo é o memorial da Páscoa e o louvor de Deus que, ao arrancar seu Filho da morte, faz triunfar sua Vida em nós. Em uma das comunidades da Igreja primitiva, havia pessoas que duvidavam da ressurreição do Senhor. É a elas que São Paulo escreve: "Se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é sem fundamento, e sem fundamento também é a vossa fé... e ainda estais nos vossos pecados... Então também pereceram os que morreram em Cristo. Se é só para esta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, somos, dentre todos os homens, os mais miseráveis" (1ª Cor 15, 14-19).

"Existe um duplo aspecto no mistério pascal: pela sua morte, Cristo libertou-nos do pecado; pela sua Ressurreição, abre-nos o acesso a uma vida nova" (Catecismo da Igreja Católica 654).

  •  Acreditamos que o Pai "ressuscitou Cristo, seu Filho, e desta forma introduziu de modo perfeito sua humanidade - com seu corpo - na Trindade" (CIC 648).

  •  Acreditamos que Jesus ressuscitado, nosso Senhor, é fonte de esperança para todos os que depositam nele a sua fé: Ele nos faz participantes da sua Vida. A tal ponto que, no fim da nossa vida, não é o nada o que nos espera, mas a vida eterna na plenitude de Deus; Ele nos "chamou das trevas para a sua luz maravilhosa" (1ª Pd 2, 9). 

  •  Acreditamos que, em Cristo, vencedor do pecado e da morte, o universo renasce e se renova (cf. quarto prefácio da Páscoa).
 
  •  Acreditamos que o Espírito de Jesus ressuscitado vive e age no nosso mundo. 

  • Acreditamos que Jesus Cristo voltará no dia do Juízo. Que Ele libertará de todo o mal e de todo o sofrimento os homens e as mulheres de boa vontade, que os ressuscitará e lhes dará a Vida sem fim.

Rezamos assim:

"Disso se alegra meu coração, exulta a minha alma; também meu corpo repousa seguro, pois não vais abandonar minha vida no sepulcro nem vais deixar que teu santo experimente a corrupção. O caminho da vida me indicarás, alegria plena à tua direita, para sempre" (Salmo 16, 9-11)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Quem são os falsos profetas


De Frei Raniero Cantalamessa, O mistério da Palavra de Deus. São Paulo: Canção Nova, 2012. p. 80-83.

Não estamos aqui para fazer uma investigação sobre os falsos profetas na Bíblia. Como sempre, é a nosso respeito que a Bíblia fala e é a nós que se fala. Aquela palavra de Jesus não julga o mundo, mas sim a Igreja; o mundo não será julgado pelas palavras vãs (todas as suas palavras no sentido acima descrito são palavras vãs!), mas será julgado, no caso, por não ter acreditado em Jesus (cf. Jo 16, 9). Os "homens que deverão prestar contas de toda palavra vã" são os homens de Igreja; somos nós, pregadores da Palavra de Deus.

Os falsos profetas não são apenas aqueles que de quando em quando espalham heresias; são também aqueles que "falsificam a Palavra de Deus". Quem usa este termo é Paulo, extraindo-o da linguagem corrente. Ao pé da letra, isso significa alterar a Palavra, como fazem os taverneiros fraudulentos, quando aumentam seu volume de vinho com água (cf. 2ª Cor 2, 17; 4, 2). Os falsos profetas são aqueles que não apresentam a Palavra de Deus em sua pureza, diluindo-a e enfraquecendo-a em mil palavras humanas que saem de seu coração.

Falso profeta também sou eu, toda vez que não confio na "fraqueza", "estupidez", pobreza e nudez da Palavra e pretendo revesti-la, dando mais importância ao revestimento do que à Palavra, sendo maior o tempo que gasto com o revestimento do que com a Palavra, ou seja, permanecendo diante dela em oração, adorando-a e vivendo-a em mim. De profetas "verdadeiros", em sentido absoluto, só existe um: Jesus Cristo, que pronuncia sempre e somente "as Palavras de Deus" (Jo 3, 34). Os Evangelhos não contêm nenhuma palavra "inútil", nenhuma sequer, mas somente "palavras de vida eterna", palavras que são "espírito e vida".

Em Caná da Galileia, Jesus transformou a água em vinho, isto é, transformou a letra morta no Espírito que vivifica (assim é interpretado o fato, espiritualmente, pelos padres); os falsos profetas são aqueles que fazem precisamente o oposto, ou seja, transformam o vinho puro da Palavra de Deus em água que não extasia ninguém, em letra morta ou em palavras de sabedoria humana (cf. 1ª Cor 2, 4). Estes, bem no fundo, envergonham-se do Evangelho (cf. Rm 1, 16) e das palavras de Jesus, porque são demasiado "duras" para o mundo e demasiado pobres e nuas para os doutos, e então procuram fazê-las "condizer" com aquelas que Jeremias denominava "as fantasias do seu coração".

São Paulo escrevia a seu discípulo Timóteo: "Esforça-te por te apresentares a Deus como homem provado, como operário [...] que comunica a palavra da verdade com exatidão. Evita as conversas fúteis e mundanas, pois os que a elas se entregam progredirão cada vez mais na impiedade" (2ª Tm 2, 15-16). Os palavreados profanos são aqueles que não têm relação com o desígnio de Deus, que não nos introduzem na missão da Igreja. Excesso de palavras humanas, exagero de palavras inúteis, frases em demasia, documentos em excesso. Na era da comunicação de massa, a Igreja corre o risco de afundar-se, também ela, na "palha" das palavras "vãs", ditas simplesmente por dizer, escritas pelo simples fato de existirem revistas e jornais cujo espaço precisa ser preenchido.

Desse modo, oferecemos ao mundo um ótimo pretexto para permanecer tranquilo em sua descrença e em seu pecado. Quando escutar a autêntica Palavra de Deus, não seria tão fácil, para o incrédulo, safar-se dela, dizendo (como faz frequentemente, após ter ouvido nossas homilias): "Palavras, palavras, palavras". São Paulo denomina as Palavras de Deus "as armas do nosso combate" e afirma que somente elas "São armas poderosas aos olhos de Deus, capazes de derrubar fortalezas. Destruímos sofismas e todo orgulho intelectual que se levanta contra o conhecimento de Deus; e subjugamos todo pensamento para torná-lo obediente a Cristo" (2ª Cor 10, 4-5).

A humanidade está doente de barulho, dizia o filósofo Kierkegaard; é preciso "apregoar um jejum, mas um jejum de palavras; é preciso que alguém brade, como fez um dia Moisés: 'Guarda silêncio, Israel, e escuta' (Dt 27, 9)". O papa Bento XVI lembrou a necessidade deste jejum de palavras em seu encontro quaresmal com os párocos de Roma e creio que, como sempre, seu convite era dirigido à Igreja, antes ainda que ao mundo.