sexta-feira, 1 de julho de 2016

Quem são os falsos profetas


De Frei Raniero Cantalamessa, O mistério da Palavra de Deus. São Paulo: Canção Nova, 2012. p. 80-83.

Não estamos aqui para fazer uma investigação sobre os falsos profetas na Bíblia. Como sempre, é a nosso respeito que a Bíblia fala e é a nós que se fala. Aquela palavra de Jesus não julga o mundo, mas sim a Igreja; o mundo não será julgado pelas palavras vãs (todas as suas palavras no sentido acima descrito são palavras vãs!), mas será julgado, no caso, por não ter acreditado em Jesus (cf. Jo 16, 9). Os "homens que deverão prestar contas de toda palavra vã" são os homens de Igreja; somos nós, pregadores da Palavra de Deus.

Os falsos profetas não são apenas aqueles que de quando em quando espalham heresias; são também aqueles que "falsificam a Palavra de Deus". Quem usa este termo é Paulo, extraindo-o da linguagem corrente. Ao pé da letra, isso significa alterar a Palavra, como fazem os taverneiros fraudulentos, quando aumentam seu volume de vinho com água (cf. 2ª Cor 2, 17; 4, 2). Os falsos profetas são aqueles que não apresentam a Palavra de Deus em sua pureza, diluindo-a e enfraquecendo-a em mil palavras humanas que saem de seu coração.

Falso profeta também sou eu, toda vez que não confio na "fraqueza", "estupidez", pobreza e nudez da Palavra e pretendo revesti-la, dando mais importância ao revestimento do que à Palavra, sendo maior o tempo que gasto com o revestimento do que com a Palavra, ou seja, permanecendo diante dela em oração, adorando-a e vivendo-a em mim. De profetas "verdadeiros", em sentido absoluto, só existe um: Jesus Cristo, que pronuncia sempre e somente "as Palavras de Deus" (Jo 3, 34). Os Evangelhos não contêm nenhuma palavra "inútil", nenhuma sequer, mas somente "palavras de vida eterna", palavras que são "espírito e vida".

Em Caná da Galileia, Jesus transformou a água em vinho, isto é, transformou a letra morta no Espírito que vivifica (assim é interpretado o fato, espiritualmente, pelos padres); os falsos profetas são aqueles que fazem precisamente o oposto, ou seja, transformam o vinho puro da Palavra de Deus em água que não extasia ninguém, em letra morta ou em palavras de sabedoria humana (cf. 1ª Cor 2, 4). Estes, bem no fundo, envergonham-se do Evangelho (cf. Rm 1, 16) e das palavras de Jesus, porque são demasiado "duras" para o mundo e demasiado pobres e nuas para os doutos, e então procuram fazê-las "condizer" com aquelas que Jeremias denominava "as fantasias do seu coração".

São Paulo escrevia a seu discípulo Timóteo: "Esforça-te por te apresentares a Deus como homem provado, como operário [...] que comunica a palavra da verdade com exatidão. Evita as conversas fúteis e mundanas, pois os que a elas se entregam progredirão cada vez mais na impiedade" (2ª Tm 2, 15-16). Os palavreados profanos são aqueles que não têm relação com o desígnio de Deus, que não nos introduzem na missão da Igreja. Excesso de palavras humanas, exagero de palavras inúteis, frases em demasia, documentos em excesso. Na era da comunicação de massa, a Igreja corre o risco de afundar-se, também ela, na "palha" das palavras "vãs", ditas simplesmente por dizer, escritas pelo simples fato de existirem revistas e jornais cujo espaço precisa ser preenchido.

Desse modo, oferecemos ao mundo um ótimo pretexto para permanecer tranquilo em sua descrença e em seu pecado. Quando escutar a autêntica Palavra de Deus, não seria tão fácil, para o incrédulo, safar-se dela, dizendo (como faz frequentemente, após ter ouvido nossas homilias): "Palavras, palavras, palavras". São Paulo denomina as Palavras de Deus "as armas do nosso combate" e afirma que somente elas "São armas poderosas aos olhos de Deus, capazes de derrubar fortalezas. Destruímos sofismas e todo orgulho intelectual que se levanta contra o conhecimento de Deus; e subjugamos todo pensamento para torná-lo obediente a Cristo" (2ª Cor 10, 4-5).

A humanidade está doente de barulho, dizia o filósofo Kierkegaard; é preciso "apregoar um jejum, mas um jejum de palavras; é preciso que alguém brade, como fez um dia Moisés: 'Guarda silêncio, Israel, e escuta' (Dt 27, 9)". O papa Bento XVI lembrou a necessidade deste jejum de palavras em seu encontro quaresmal com os párocos de Roma e creio que, como sempre, seu convite era dirigido à Igreja, antes ainda que ao mundo. 

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