Da Imitação de Cristo, livro III, capítulo XVI.
Tudo que posso desejar ou procurar para meu consolo não o
espero nesta vida, mas na futura, porque ainda que eu tivesse todas as
consolações do mundo e pudesse fruir todas as suas delícias, certo é que não
poderiam durar muito tempo. Portanto, considera, ó minha alma, que não poderás
achar consolo pleno e alegria perfeita senão em Deus, que consola os pobres e
agasalha os humildes. Espera um pouco, ó minha alma, espera a divina promessa, e
no céu terás todos os bens em abundância. Se desordenadamente desejares os bens
presentes, perderás os eternos e celestes. Usa das coisas temporais, mas deseja
as eternas. Não te podes satisfazer bem algum temporal, porque não foste criada
para gozá-los.
Ainda que possuísses todos os bens criados, não poderias ser
feliz e estar contente, porque só em Deus, criador de tudo, consiste tua bem-aventurança
e felicidade; não qual a entendem e louvam os amadores do mundo, mas como a
esperam os bons servos de Cristo, e às vezes antegozam as pessoas espirituais e
limpas de coração, cuja cidadania está nos céus (Fl 3,20). Curto e vão é todo
consolo humano; bendita e verdadeira a consolação que a verdade nos comunica
interiormente. O homem devoto em toda parte traz consigo seu consolador, Jesus,
e lhe diz: Assisti-me, Senhor Jesus, em todo lugar e tempo. Seja, pois, esta a
minha consolação: o carecer voluntariamente de toda consolação humana. E se me
faltar também vosso consolo, seja para mim vossa vontade, que justamente me
experimenta, a suprema consolação. Porque não dura sempre a vossa ira, nem nos
ameaçareis eternamente (Sl 102,9).

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