Por Visão Transcendente
Na tentação, às vezes, nos saímos com esse pensamento: "Vou pecar, depois procurarei o sacerdote e me confessarei". Pensamento perigoso, que certamente não vem de Deus. Aparentemente trata-se de fé na misericórdia divina e confiança no Sacramento da Reconciliação e na Igreja, mas na verdade esse tipo de pensamento revela o oposto disso.
Na verdade, quem pensa assim, provavelmente já está tão imerso no pecado que o seu temor à Deus está por um fio. Na realidade, o pecado já se transformou na sua primeira opção, e ele se agarra nesse pensamento enganando-se a si mesmo, tentando disfarçar a verdade, de que ele "adotou" o seu pecado, agora ele possui o seu "pecado de estimação", que se tornou o seu deus.
Essa pessoa, provavelmente está a tempos abusando da misericórdia divina e já encontra-se "vacinada" com relação à ela. A misericórdia de Deus não é mais a verdade que a leva a arrepender-se de seus erros e a força propulsora que a faz retomar o caminho correto depois das quedas, mas converteu-se numa justificativa para os seus pecados. Mais ou menos assim: "Deus ama-me para sempre, independentemente de meus pecados, e sua misericórdia é infinita, se eu pecar ele sempre me perdoa". Esse conceito é corretíssimo para os que temem à Deus, odiando os próprios pecados e emendando a vida depois da Confissão, mas para quem está imerso no pecado pode se transformar numa justificativa para continuar no erro. Satanás consegue inverter na cabeça das pessoas essa bela realidade da paciência e da misericórdia de Deus, fazendo-nos crer que Ele é permissivo e não exige de nós a mudança de vida, a conversão.
Uma vez, numa homilia, ouvi um padre dizer que o demônio nos confunde da seguinte forma nesse tocante: antes de pecarmos, na tentação, ele nos apresenta a imagem de um Deus infinitamente misericordioso, que sempre nos perdoará, que não nos julga nunca e sempre nos compreende, não importando se pecamos e como pecamos; e depois do pecado, quando estamos desgraçados, justamente no momento em que precisamos crer na misericórdia divina, ele nos incute a imagem de um Deus severo que nos repele porque somos pecadores e que não nos ama porque não seguimos seus ditames, que não nos perdoará porque não compreende nossa fraqueza.
É necessário que façamos esse exame de consciência: será que não estou abusando da misericórdia divina, ou sequer estou compreendendo o que é essa misericórdia.
Outra questão a ser destaca nesse ponto é a falta de sentido do pensamento que dá título a este texto. São dois motivos que nos permitem perceber que esse pensar não tem razão. Primeiro, nós sabemos que o fruto do Sacramento da Reconciliação, que é o perdão dos pecados, pressupõe um arrependimento sincero e a reta intenção de não pecar mais. Não adianta confessar-se sem ter se arrependido e sem ter tomado a firme resolução de voltar a trilhar o caminho de Deus. A confissão não traz o perdão automaticamente se não possuímos esses pressupostos. E quem pensa "vou pecar, depois eu me confesso" não está verdadeiramente arrependido do seu pecado, porque quem pensa assim certamente já esteve muitas vezes diante do sacerdote confessando-se desse mesmo pecado, o arrependimento está adormecido e a confissão pode ter se transformado numa coisa automática, numa obrigação, e não é mais vista como uma graça para a salvação, mas sim como um peso. Segundo, o "depois" pode não existir. Você já pensou nisso? Talvez não haja mais tempo para o arrependimento, a confissão e a emenda da vida. A Bíblia nos conta uma história que ilustra bem isso. Lembra-se da história de Ananias e Safira? Em Atos dos Apóstolos, capítulo 5, nos é dito que eles venderam um pedaço de propriedade e deram uma parte do preço da venda aos apóstolos. O problema foi que eles mentiram na tentativa de se mostrarem mais espirituais do que realmente eram, dizendo aos apóstolos que estavam dando todo o valor da venda. A mentira foi descoberta e a Ananias não foi dada a oportunidade de acertar as coisas. O apóstolo Pedro o repreendeu severamente e, em seguida, a Bíblia diz: "Ouvindo isso, Ananias caiu morto" (Atos dos Apóstolos 5, 5). Quem disse que sempre haverá oportunidade de acertar as coisas? Somente um tolo diria: "Eu sempre posso acertar as coisas depois". Salomão estava certo quando disse: "Não se gabe do dia de amanhã, pois você não sabe o que este ou aquele dia poderá trazer" (Provérbios 27, 1).
Assim sendo, peçamos ao Senhor novamente o seu santo temor e retornemos ao caminho da vida e da felicidade.

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