De Padre João Mohana, Como ser um bom pregador. São Paulo: Edições Loyola, 2005. p. 77-78.
Num sermão de advento sobre João Batista, Santo Agostinho recomendou aos fiéis de Hipona que distinguissem voz e palavra.
João Batista foi a voz. Jesus é a Palavra. A Palavra de Deus.
Acontece que a Palavra de Deus não cessa, não passa, não se extingue. Pelo contrário, tem de estar sempre presente entre os homens, entre os cristãos. Mas, como a voz de João Batista passou, a voz de todo pregador também passa. Por isso, em cada geração, Jesus conta com tua voz, com minha voz, com nossa voz.
Lembro-me, neste momento, do brilhante ator Lawrence Olivier, um dos maiores do século XX, desvendando para os jovens atores os segredos da arte de interpretar. E a condição primeira, apontada por Lawrence Olivier, é esta: o ator deve, antes de tudo, amar o personagem a interpretar. Seja o personagem cativante, seja asqueroso, limpo ou crápula.
Se não amar o personagem, jamais um ator poderá assumir a tarefa de torná-lo convincente. Ora, se isto é válido - e como é - para uma simples interpretação, tanto mais válido será para um pregador, cuja função é mais que interpretar - é testemunhar. E, se é válido para personagens fictícios, tanto mais válido é para Aquele que não é apenas a Palavra de vida, mas o Sentido pleno da vida. Como não amar essa Palavra e esse Sentido? É nossa razão de viver e nossa razão de pregar.
Acontece que depois de passarmos, como João Batista, outras vozes precisam colocar-se à disposição da Palavra de Deus, que quer ecoar entre os homens e entre as mulheres de todas as latitudes.
Hoje o Cristo que nos convocou para essa tarefa conta com nosso amor e com nossa responsabilidade. Não apenas com nossos dons.
Voz da Palavra de Deus, cada pregador não deve sucumbir à tentação de auto-suficiência. E resistimos a essa tentação não nos julgando a Palavra, mas simplesmente a voz. Voz que sonha com este privilégio: emprestar-se à Palavra, para que Deus seja ouvido no mundo.
Não é apenas voz dos que não têm voz. É voz dos sem-voz, porque é voz da Palavra de Deus, cuja misericórdia não esquece ninguém.
Consciente de que empresta a voz à Palavra de Deus, todo pregador não deve jamais ceder à tentação de subir ao altar, de ocupar o púlpito sem primeiro encontrar-se com essa Palavra feita carne no meio de nós. E antes de começar a falar, toda vez que pregar - toda vez - o pregador competente e responsável deve dirigir a Jesus Cristo uma prece com o espírito desta:
"Senhor Jesus, eu te entrego agora minha voz. Comunica tua Palavra por meio dela. Fala por mim, Senhor". Apenas esta sinceridade, esta abertura, este sentimento, esta fé.
Para possibilitar tranquilidade nessa oração e alegria nos sermões que ela prepara, foi que escrevi este livro.
E louvado seja Aquele que nos mandou pregar o Evangelho a todos os povos. Amém.

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