sexta-feira, 27 de abril de 2018

A conversão requer sacrifício, pois é um crescimento no amor


Por Visão Transcendente

Certa vez Jesus disse:

“Se alguém quiser vir após mim, renegue- se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me.” (Lucas 9, 23).

Uma vida cristã autêntica não é fácil de ser vivida. As palavras de Jesus citadas acima são claras: a vida cristã consiste numa renúncia de nós mesmos, isto é, das nossas vontades e planos que muitas vezes não são honestos. Por exemplo: como é difícil para um alcoólatra largar seu vício! Realmente para ele deixar de consumir álcool é lutar contra a sua própria “natureza”, é renegar, renunciar a si mesmo. E o dia a dia longe do vício é realmente tão pesado como carregar uma cruz. Mas ele tem consciência que todo o seu esforço será compensador, por vários motivos. O ex-alcoólatra sabe da vida miserável que vivia, e que apesar de sua nova vida requerer tanto esforço vale à pena converter a sua natureza e se tornar novamente um homem sadio espiritual e fisicamente.
É importante você saber: a conversão requer sacrifício, pois é um crescimento no amor. E nesse mundo não se ama sem sofrer, sem sacrificar-se. Gosto muito de um hino dedicado à Santa Rita de Cássia, pois considero que ele traduz em música essa verdade cristã importantíssima, assim diz o hino: “Na amarga vida, ó Santa Rita, quem sabe amar sabe sofrer e no silêncio que tortura aprende a arte de viver”, e em outro trecho: “Ó Santa Rita de Jesus, ensinas-me lição de vida: sofrer e amar levando a Cruz!”.
A Imitação de Cristo ilumina essa realidade do sofrimento bom e purificador em palavras simples:

“Toda a nossa paz, porém, nesta vida miserável, consiste mais na humilde resignação, que em não sentir contrariedades. Quem melhor sabe sofrer maior paz terá. Esse é vencedor de si mesmo e senhor do mundo, amigo de Cristo e herdeiro do Céu.” (Tomás de Kempis, Imitação de Cristo, livro II, capítulo III)

O amor consiste justamente nisso: em renunciar a nós mesmos por um bem maior, pelo bem do próximo ou para agradar a Deus. Olhemos o amor de Jesus e tomemos Nosso Senhor como exemplo: ele sempre pensou no bem do próximo, na felicidade alheia e no fazer a vontade de seu Pai. Jesus por onde passou foi fazendo o bem, curando todos os males e pregando somente a palavra de Deus Pai. Até a sua vida na Cruz ele ofereceu livremente para perdoar os nossos pecados, fazendo o contrário do que a sua vontade humana pedia. É como diz aquela canção popular: “Olhe pra Cruz essa é a minha grande prova: ninguém te ama como eu”. São palavras de Jesus:

“Eu vim para que as ovelhas tenham vida e para que a tenham em abundância. Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas.” (João 10, 10-11)

“Pai... não se faça a minha vontade, mas sim a tua” (Lucas 22, 42)

O contrário do amor não é o ódio como se costuma pensar e dizer, o contrário do amor é o egoísmo, o contrário do amor é a mesquinhez, é pensar só no meu bem, na minha satisfação, na minha alegria. O contrário do amor é pensar: “Se eu estiver bem, que o mundo se exploda”, “Se eu estou feliz, o resto que se dane”.
A conversão, portanto, exige um sacrifício interior da nossa vontade em direção à vontade de Deus e um sacrifício exterior na luta contra as más inclinações e os vícios. Santo Tomás de Aquino dizia que o desordenado amor por si mesmo é a causa de todos os pecados, por isso uma verdadeira conversão exige que pensemos mais no bem do próximo e na vontade de Deus do que nosso bem e nas nossas vontades. É a regra de ouro da vida cristã:

“Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles.” (Mateus 7, 12)

São Francisco de Assis expressava essa verdade evangélica acima mencionada de outra maneira:

“Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado, compreender que ser compreendido, amar que ser amado. Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado.” (Oração atribuída a São Francisco de Assis)

Devemos consolar os outros, antes de pensar e querer que os outros nos agradem e consolem. Devemos compreender as pessoas, mesmo que elas não nos compreendam. Devemos dar o primeiro passo no amor, fazendo o bem mesmo àqueles que nunca fizeram nada por nós. Devemos perdoar para então merecermos o perdão. O nosso grande mal é achar que o mundo é um grande restaurante em que nós somos o único cliente e todas as outras pessoas são nossos garçons, estão a nosso serviço.
Jesus, nosso maior exemplo, nos disse:

“O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em redenção por muitos.” (Marcos 10, 45)

Na última ceia Jesus não se sentou e pediu para que os apóstolos viessem lavar os seus pés, os beijassem e adorassem a Ele como Deus, mas pelo contrário Ele se rebaixou e lavou os pés dos apóstolos, e depois disse:

“Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Logo, se eu, vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós.” (João 13, 13-15)

É necessário compreender: a conversão é um crescimento constante no amor que só acaba com a morte. Um dia eu estava na igreja, na fila para me confessar e ao meu lado duas senhoras de idades bem avançadas conversavam, e alegremente uma dizia para outra, como se fosse algo de se orgulhar, que desde a juventude os seus pecados eram os mesmos e que sempre se confessavam da mesma forma. Naquele momento eu desejei no meu coração, sem julgá-las, que não acontecesse o mesmo comigo, pois isso não é cristianismo. A vida espiritual do cristão não pode ficar estagnada, sem ir para frente. Um cristão não pode ficar preso a vida inteira aos mesmos pecados, sem progredir no amor. Todos nós devemos ser como aquele grão de mostarda da parábola  de Jesus:

“A que assemelharemos o reino de Deus, ou com que parábola o representaremos? É como um grão de mostarda, que, quando semeado na terra, embora seja menor que todas as sementes que há na terra, contudo depois de semeado, cresce e se torna a maior de todas as hortaliças, e deita grandes ramos, de tal modo que as aves do céu podem pousar à sua sombra.” (Marcos 4, 30-32)

Peçamos a Deus que nos ajude a amar e a crescer no amor. Que Jesus nos ensine, a seu exemplo, a renunciarmos a nós mesmos, ou seja, aos nossos vícios e más condutas e carregar a nossa Cruz cotidiana, como diz a famosa canção: “Humildes e confiantes levemos a nossa Cruz, seguindo o sublime exemplo de Nosso Senhor Jesus”.
Mais uma vez a Imitação de Cristo traduz em palavras profundas e simples o mistério da nossa união com Cristo através da Cruz cotidiana:

“Porque temes, pois, tomar a Cruz, pela qual se caminha ao reino do Céu? Na Cruz está a salvação, na Cruz a vida, na Cruz o amparo contra os inimigos, na Cruz a abundância da suavidade divina, na Cruz a fortaleza do coração, na Cruz o compêndio das virtudes, na Cruz a perfeição da santidade. Não há salvação da alma nem esperança da vida, senão na Cruz. Toma, pois, a tua Cruz, segue a Jesus e entrarás na vida eterna. O Senhor foi adiante, com a Cruz às costas, e nela morreu por teu amor, para que tu também leves a tua Cruz e nela desejes morrer. Porquanto, se com Ele morreres, também com Ele viverás. E, se fores seu companheiro na pena, também o serás na glória.” (Tomás de Kempis, Imitação de Cristo, livro II, capítulo XII)

A sabedoria espiritual dos santos também nos ajuda a compreender o sacrifício pessoal de uma forma cristã:

“Ao ver as recompensas eternas em tamanha desproporção com os ligeiros sacrifícios desta vida, quisera amar a Jesus, amá-Lo apaixonadamente, e dar-Lhe mil provas de minha ternura, enquanto me era dado fazê-lo.” (Santa Teresinha do Menino Jesus, História de uma alma – c. V.)

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