Por Visão Transcendente
A
fé é um dom de Deus, um presente que nos foi dado por Ele. A fé é a graça
especialíssima concedida gratuitamente a nós por Deus (sem merecimento nenhum
da nossa parte) para que pudéssemos transcender as aparências deste mundo e
acreditar nas verdades eternas e imutáveis estabelecidas por Ele para a
realização da sua soberana vontade, que é também a nossa felicidade. Em
palavras ainda mais simples: a fé é o meio que Deus nos deu de crer n’Ele e
amá-lo para que assim possamos ser felizes.
Mas
a fé, além de ser um presente liberal de Deus, é também uma resposta da nossa
parte ao seu grande amor por nós. Diz o Catecismo da Igreja Católica:
“A
fé é a resposta do homem a Deus que se revela e a ele se doa, trazendo ao mesmo
tempo uma luz superabundante ao homem em busca do sentido último de sua vida.”
(Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 26)
Essa
resposta por meio da fé conduz-nos quase que obrigatoriamente à uma mudança de
vida, à uma conversão, pois não é possível entrar no caminho de Deus e
permanecer com a mesma vida de sempre, ou seja, com a mesma mentalidade, os
mesmos hábitos, a mesma maneira velha de se comportar. É como escreveu São
Paulo:
“Se,
portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo
está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da
terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.
Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também vós aparecereis com ele na
glória.” (Colossenses 3, 1-4)
“Todo
aquele que está em Cristo é uma nova criatura. Passou o que era velho; eis que
tudo se fez novo.” (2ª Coríntios 5, 17)
A
conversão é um processo de morte e ressurreição, como diz São Paulo na passagem
bíblica acima, morte do meu eu, da minha vontade própria egoísta, dos meus maus
hábitos, é uma renúncia aos meus erros cometidos no passado; e é também uma
ressurreição, isto é, um renascimento para as coisas boas que a vida nos
oferece, um renascimento para o amor, é quando eu deixo de ser o centro da
minha vida, é quando a minha vida deixa de ser autorreferencial e passa a ser
teocêntrica, ou seja, ocupada pelo amor a Deus e pelo bem que eu devo fazer às
outras pessoas por causa de Deus, especialmente às que me amam.
Gostaria
que você gravasse isso muito bem, pois é um dos princípios espirituais mais
importantes: é Deus quem nos converte. A minha mudança de vida é “produto”
unicamente da ação do Espírito Santo, e eu não tenho nenhum mérito nela. A
minha conversão é fruto da graça divina. Foi Deus quem me criou, me deu corpo e
alma, foi Ele que me fez nascer em condições tais que eu pudesse conhecê-lo, ou
seja, me fez nascer em uma família cristã ou num país no qual o cristianismo
está presente, etc. Foi Deus quem me atraiu até Ele, por caminhos invisíveis
que só a fé me faz enxergar, e finalmente é Ele quem, após o meu livre
consentimento, age nos meus membros e na minha mente para que eu possa amá-lo, rezando
e fazendo a sua santíssima vontade. Foi Nosso Senhor quem nos escolheu, e não
nós a Ele:
“Não
fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi e vos constituí para que
vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça.” (João 15, 16)
Por
isso não cabe ao convertido se vangloriar, se achar superior aos outros, ou
achar que a sua mudança de vida é fruto unicamente do seu próprio esforço. Na
verdade é Deus quem vem em nós cumprir a sua vontade. São Paulo expressa essa
verdade importantíssima através dessas palavras:
“Porque
é Deus quem, segundo a sua vontade, opera em vós o querer e o fazer.”
(Filipenses 2, 13)
Nosso
Senhor mesmo já havia expressado essa sentença:
“Eu
sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito
fruto; porque sem mim nada podeis fazer”. (João 15, 5)
Jesus
expressou bem a sua reprovação contra aqueles que se vangloriam diante de Deus
quando contou aquela parábola do fariseu e do publicano que foram ao templo
rezar:
”Propôs
também a seguinte parábola a alguns que confiavam na sua própria justiça e
desprezavam os outros: Subiram dois homens ao templo para orar: um fariseu e
outro publicano. O fariseu, posto em pé, orava dentro de si desta forma: Ó
Deus, graças te dou que não sou como os demais homens, que são ladrões,
injustos, adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana
e dou o dízimo de tudo quanto ganho. O publicano, porém, estando a alguma distância,
não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó
Deus, sê propício a mim pecador. Digo-vos que este desceu justificado para sua
casa, e não aquele; porque todo o que se exalta, será humilhado; mas o que se
humilha, será exaltado.” (Lucas 18, 9-14)
Que
Deus nos ajude a ser, no nosso processo de conversão, sempre como esse
publicano: humildes porque conscientes dos nossos pecados e das nossas
limitações e sempre abertos à necessidade da graça de Deus.
O
perigo que corremos ao atribuir somente a nós mesmos os méritos da nossa
conversão é cair na heresia do pelagianismo. Trata-se de uma heresia
iniciada na Antiguidade por um monge chamado Pelágio. Ele dizia que não era
necessário o auxílio da graça de Deus para que o ser humano realizasse atos de
virtude. Cristo morreu na cruz e deu o exemplo. Bastaria ao homem segui-lo.
Essa heresia foi condenada pela Igreja em todos os tempos, justamente porque
nega o poder da ação da graça de Deus na nossa alma e diminui os méritos da
paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo para a nossa salvação. Por isso
tenhamos muito cuidado: a humildade deve ser sempre uma das nossas metas,
humildade no falar, no pensar e no agir, sempre. E que tenhamos sempre em
consciência essa verdade: é Deus quem me converte.

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