sexta-feira, 20 de abril de 2018

Fazer a vontade de Deus é uma fonte inesgotável de alegria



Por Visão Transcendente

Ao contrário do que comumente se propagandeia, fazer a vontade de Deus, seguir os seus mandamentos e amar a Igreja não consiste num abandono dos nossos sonhos, uma sublimação dos nossos desejos, uma renúncia à felicidade, não! Pelo contrário, fazer a vontade de Deus é uma fonte inesgotável de alegria. Certa vez Jesus disse:

“Aquele que crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva.” (João 7, 38) 

Eu não conheço uma expressão mais perfeita do que essa usada por Nosso Senhor para descrever a felicidade desejada por todos: rios de água fluindo do interior da pessoa. Você certamente já viu um rio caudaloso, descendo as suas águas em corredeira rapidamente. Que imagem bela! Que expressão de vida, vida abundante! Pois então imagine agora essa água fluindo do seu interior. Essa é a promessa explícita de Nosso Senhor: aqueles que crêem n’Ele serão preenchidos por essa tamanha felicidade.
E não é uma promessa falsa, pois já foi atestada pela vida alegre, feliz e realizada de milhares de santos durante esses dois mil anos de cristianismo.
Só pode compreender o que é felicidade quem já a experimentou e depois, por algum motivo, abandonou esse caminho. Jesus nos oferece a felicidade verdadeira porque no seu projeto de vida, que nós chamamos Evangelho, ele promove o encontro de nós conosco mesmos, com Deus e com as outras pessoas.
Uma pessoa feliz é justamente aquela que se conhece profundamente, tanto nos seus limites, quanto nos seus talentos. Vive em paz consigo mesma, conseguiu perdoar-se a si própria pelos erros do passado.  Uma pessoa feliz, que encontrou a si mesma é uma autocensora, isto é, sabe se reprovar quando erra, e se penitencia por isso, e até por isso mesmo não se ofende quando alguém a reprova por algum defeito ou pecado. Mas também é alguém que não é dura demais consigo mesma, pois sabe que não é perfeita e reconhece a sua natureza pecaminosa, tendenciosa ao mal. Uma pessoa feliz é humilde, pois tem consciência da sua pequenez e insignificância diante de Deus e do mundo, mas nem por isso tem complexo de inferioridade, pois também tem em mente que foi querida, projetada e criada por Deus, que a ama profundamente e eternamente.
Uma pessoa feliz é aquela que encontrou-se com Deus na pessoa de seu Filho Jesus. Ela sabe que jamais será feliz trilhando um caminho paralelo ao de Jesus, pois sabe que Jesus é o único caminho para o Pai, e não há outro, como Ele mesmo disse:

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” (João 14, 6)

Até por isso mesmo quando um convertido se afasta do caminho do Senhor ele não se sente feliz, a todo o momento a sua consciência o perturba e ele permanece inquieto, porque sabe que a vida que leva não leva para lugar algum, e que seu futuro certamente só terá tristeza e desilusão. 
Quem se encontrou com Deus ama estar a sós com Ele, a oração é para ele uma alegria. Ali na solidão do seu quarto não se sente só, mas reconhece a presença d’Aquele que é mais vivo do que ele próprio, e então abre o seu coração, tem prazer de colocar cada fato ou acontecimento do seu dia diante de Deus. Na oração agradece, pede perdão e bênçãos, com a paciência de quem confia plenamente n’Aquele que o escuta.
A pessoa feliz tem prazer em fazer a vontade de Deus, cumprir os seus mandamentos, tanto fazendo o que Ele pede quanto se abstendo de fazer o que Ele reprova. O que para os outros é penoso e às vezes até incompreensível, para quem serve a Deus é a coisa mais natural de se fazer.
A comunhão eucarística é o momento mais espetacular da vida de quem encontrou-se com o Senhor, pois se trata do momento de maior intimidade possível com Aquele que mais se ama. Ele sente a sua alma exultar quando comunga, reconhece a sacralidade e a santidade do gesto, e até por isso mesmo jamais ousaria aproximar-se em pecado mortal da mesa eucarística, porque entende o tamanho do sacrilégio e da hipocrisia que encerrariam tal gesto. Seria, mal comparando, o mesmo que beijar a própria esposa dizendo que a ama minutos depois de tê-la traído. 
Ouvir a Palavra de Deus, a Sagrada Escritura, é para aquele que conhece a Deus como escutar a melhor das músicas, o ritmo musical que mais lhe agrada. Ele sente que não são palavras comuns, não! Sua alma exulta, seu coração às vezes queima, às vezes se acalma. O temor se apodera dele quando escuta um mandamento do Senhor que ainda não executou ou que lentamente executa ou que executa de forma pouco zelosa. Ele se entristece quando escuta as promessas de felicidade reservadas para os que amam a Deus, se ele está trilhando um caminho mau. E pelo contrário, se enche de esperança se tem certeza que está num bom caminho. O salmo primeiro é a vida que almeja:

“Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os zombadores. Feliz aquele que se compraz no serviço do Senhor e medita sua lei dia e noite. Ele é como a árvore plantada na margem das águas correntes: dá fruto na época própria, sua folhagem não murchará jamais. Tudo o que empreende, prospera. Os ímpios não são assim! Mas são como a palha que o vento leva. Por isso não suportarão o juízo, nem permanecerão os pecadores na assembleia dos justos. Porque o Senhor vela pelo caminho dos justos, ao passo que o dos ímpios leva à perdição.” (Salmos 1)

Na nossa relação com o próximo, isto é, com nossos familiares, amigos, colegas de trabalho, irmãos da igreja e todas as pessoas com as quais convivemos no dia a dia, tudo muda, torna-se completamente outra quando assumimos o Evangelho como nosso projeto definitivo de vida. Passamos a respeitar o outro como pessoa, atentamos para suas fragilidades emocionais e materiais, procuramos não julgá-lo em seus pecados.
Um verdadeiro convertido procura sempre fazer o bem ao próximo, porque sabe que Jesus colocou o amor do próximo como o segundo mandamento mais importante, logo atrás do amor que devemos à Deus:

“Respondeu Jesus: ‘Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito. Esse é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo. Nesses dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas’.” (Mateus 22, 37-40)

É como escreveu o papa Bento XVI em uma de suas cartas:

“Jesus uniu — fazendo deles um único preceito — o mandamento do amor a Deus com o do amor ao próximo.” (Papa Bento XVI, Deus Caritas Est 1)

Além de o amor ao próximo ser mandamento divino, nós também devemos amar nossos semelhantes por causa do que São João diz na sua primeira carta:

“Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê.” (1ª João 4, 20)

Quando nos convertemos paramos de enxergar o mundo como uma grande selva, um lugar de competição. Não vemos mais os outros como inimigos, mas como irmãos. Não desejamos nada que os outros possuem, mas nos satisfazemos com o que é nosso, e isso faz cessar a inveja. O próximo deixa de ser “alvo” da nossa ira, ganância e inveja, e passa a ser visto com um olhar de compaixão, como alguém que necessita de ajuda e atenção. 
Quando nos convertemos as máscaras que trazíamos caem, e então perdemos o medo de expressar os nossos sentimentos para com as outras pessoas. Agora já podemos dizer: “Eu te amo”, para aquelas pessoas que sempre expressaram o amor por nós, e podemos a todo instante expressar a nossa gratidão aos amigos e todos que de alguma forma nos ajudam.
Se tínhamos algum sentimento de superioridade com relação a alguém, deixamos de tê-lo, porque compreendemos que todos são iguais perante Deus, e se isso é verdade então ninguém é maior ou melhor que ninguém, não importa de que família venha, que cargo ocupe ou a quantidade de bens materiais que possua, como diz São Francisco:

“O homem vale o que é diante de Deus e nada mais.” (São Francisco de Assis, Admoestações XIX)

Um verdadeiro convertido não tem preconceitos com ninguém e não trata nenhuma pessoa com rudeza, nem por causa de cor da pele, situação financeira, religião, nem por motivo algum. Tudo isso cai por terra e não tem mais importância, porque compreendemos que todos saímos do mesmo lugar e possuímos a mesma dignidade.
Uma frase de São Francisco descreve como deve ser o comportamento de um convertido:

“Feliz o servo que se acha tão humilde no meio de seus súditos como se estivesse entre seus senhores” (São Francisco de Assis, Admoestações XXIII)

Um verdadeiro convertido se aproxima, respeita e ama cada um da mesma forma que se aproxima, respeita e ama o Santíssimo Sacramento. Uma vida assim só pode ser descrita com uma palavra: Harmonia. A vida de um cristão convertido é uma vida em harmonia com Deus, consigo mesmo e com o próximo.

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